· Marcelo Tosatti, Glauber Costa

Marcelo Tosatti e Glauber Costa

Em 26 de novembro de 2001, um adolescente brasileiro publicou o patch que sustentava metade dos servidores do planeta.

O kernel 2.4.16. Linux estável. A versão que rodava em data centers, ISPs, supercomputadores e na infraestrutura nascente da web 2.0.

O nome dele era Marcelo Wormsbecker Tosatti.

Algumas semanas antes, Alan Cox, britânico, lendário, mantenedor da árvore 2.2, comunicou a Linus Torvalds que nao desejava mais conduzir o stable tree do 2.4. Linus perguntou quem ele indicava. Alan respondeu: Marcelo, do Brasil

Linus encaminhou o email para o adolescente em Curitiba. "Are you interested?" Marcelo respondeu: "sure."

Era isso. Sem cerimônia. Sem comitê.

Marcelo programava desde os 11 anos. Aos 13, já era empregado da Conectiva, a distribuição brasileira que reunia o melhor time de kernel hackers da América Latina. Aos 18, era a pessoa que decidia o que entrava no stable tree que rodava em metade da internet

E ele nao foi o único.

Em 2008, Linus publicou a lista dos cinco maiores contribuidores do subsistema x86 do kernel. Ingo Molnár. Thomas Gleixner. E um brasileiro de 25 anos chamado Glauber Costa.

O subsistema x86 é o coração do Linux. É o que faz o kernel rodar em Intel e AMD, isto é, em praticamente todo servidor, cloud e desktop do planeta. Ingo e Thomas são lendas vivas. Estar na mesma lista que eles aos 25 anos nao é talento. É aberração estatística.

Glauber implementou o kvmclock, a primitiva de timekeeping do KVM. Toda instância EC2 depende dessa abstração. Em 2009, integrou o time que conduziu o merge do KVM no QEMU upstream. Entre 2011 e 2013, expandiu memory cgroups para contabilizar memória do próprio kernel.

Esse trabalho é a fundação que permite o Docker existir.

Sem cgroups com isolamento real de memória, nao há container moderno. Nao há Kubernetes. Nao há EKS, GKE, AKS. A infraestrutura cloud native inteira repousa sobre uma abstração que esse brasileiro ajudou a construir.

Brasileiro tem talento bruto para systems programming. Sempre teve. Marcelo mantinha o 2.4 aos 18. Glauber escrevia x86 ao lado de Ingo e Gleixner aos 25. Arnaldo Carvalho de Melo mantém o perf. Mauro Carvalho Chehab mantém o subsistema de media do Linux. Esse nao é um povo sem capacidade técnica. É um povo sem narrativa sobre a própria capacidade.

Crescemos ouvindo que país sério é lá fora. Que startup de verdade nasce no Vale. Que infraestrutura crítica exige Stanford, Y Combinator, seed round. A trajetória dos dois é prova de que o filtro do kernel é mais limpo. A LKML nao pergunta passaporte. Pergunta se o seu patch faz sentido. Se a sua commit message explica o porquê.

Marcelo respondeu. Glauber respondeu. Arnaldo respondeu. Mauro respondeu

A pergunta nao é "por que tem tao pouco brasileiro fazendo isso?" É "por que contamos tao pouco essas histórias para os que vêm depois?"

Nao é preciso nascer no lugar certo. É preciso começar.

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